
Foto: Gonçalo Lobo Pinheiro (imagem retirada da internet)
Há quem defenda que, hoje em dia, já não se pode falar em ideologias políticas. E que deixou de haver direita e esquerda. Pois, felizmente, parece-me que ainda não chegamos a esse ponto, embora essa coisa estranha chamada “centro” seja, de facto, um terreno muito confortável para quem gosta de colher votos no céu e no inferno…
Vem isto a propósito da anunciada vontade de Paulo Portas, noticiada pelo SOL, solicitar uma investigação de fundo sobre o funcionamento do rendimento social de inserção (ou “rendimento mínimo”). Seleccionei algumas das frases do líder do CDS/PP elucidativas sobre os motivos que o levam a desconfiar do RSI:
“Há um Portugal que trabalha no duro e há outro Portugal em idade de trabalhar que vive à conta do Estado”
[A proposta é] “em defesa do Portugal que trabalha, que luta diariamente para conseguir cumprir o seu orçamento, que paga os seus impostos e cumpre com as suas obrigações”
“O Portugal que trabalha vê ao lado pessoas em idade de trabalhar receberem benefícios do Estado e que fazem pouco esforço para conseguir melhorar a sua própria situação”
Estas três afirmações de Paulo Portas demonstram, claramente, aquilo que distingue a direita da esquerda:
1º O líder do CDS/PP não é capaz de imaginar que vive num Portugal onde as portas do emprego se fecham aos jovens “com idade de trabalhar”. E que um Estado de bem deve ser socialmente solidário, sobretudo quando esse Estado tem responsabilidades no cartório…
2º Paulo Portas parece culpar os beneficiários do RSI por todos os males deste país (vá lá, desta vez não são os imigrantes…), esquecendo que quem trabalha e paga impostos é prejudicado, sobretudo, por quem foge aos impostos, apesar de ganhar milhões. Refiro-me, por exemplo, a milhares de empresários e a milhares de Portugueses que apresentam dois tipos de orçamento (“x” sem recibo, “y” com recibo…). Alguns até são vedetas do espectáculo, porventura amigos da farra “socialite” em que se move Paulo Portas!
3º Paulo Portas esquece que as oportunidades são necessárias para que, muitas vezes, se consiga melhorar a situação. Se Portugal não oferece oportunidades, pouco mais resta a milhares de jovens (e não só) portugueses que viver de biscates e da solidariedade do Estado.
Não pensar nestes “pormenores” é típico da direita e é isso que a distingue da esquerda. São, entre outras características, conceitos de solidariedade social que distanciam estas duas visões do mundo. Não basta ir à feira e dar duas de letra com quem por lá passa ou trabalha. É preciso ir a casa das pessoas, conhecer a realidade social em que se inserem. E não só em tempo de campanha eleitoral.
Pena é que Paulo Portas não peça uma investigação de fundo às regalias dos gestores das empresas públicas e, já agora, dos deputados da Assembleia da República.
Até porque há um Portugal que trabalha no duro durante quase 40 anos para ter uma reforma miserável e há outro Portugal que ao fim de meia dúzia de anos de serviço público (leia-se deputados à Assembleia da República) tem assegurada uma choruda reforma para toda a vida.
É tudo uma questão de perspectiva, o que não implica que deixe de se fiscalizar com rigor e em permanência o funcionamento do rendimento social de inserção.