
Em Portugal é sempre assim. Primeiro, convencemo-nos que somos os maiores e vamos conquistar o mundo. Depois, desatamos a disparar críticas em todos os sentidos, à procura de responsabilizar alguém, o que, no final, nunca resulta em nada…
Vem isto a propósito dos resultados dos atletas nacionais nos Jogos Olímpicos de Pequim e das declarações e tomadas de posição que lhes sucederam. Uns procuram encontrar explicações no “além” para o fracasso das suas expectativas, outros desatam a criticar os primeiros por arranjarem desculpas esfarrapadas, como a já famosa “de manhã estava bem era na caminha” (da autoria do atleta português Marco Fortes).
Sinceramente, acho que anda tudo à toa, aliás bem à maneira portuguesa, e ainda ninguém parou para pensar. Vamos por partes:
1º Marco Fortes justificou o resultado menos bom em Pequim com a hora madrugadora a que se disputou a competição do lançamento do peso. Teve a infeliz ideia (é certo) de não dramatizar e brincar com a situação, dizendo que “de manhã, estou bem é na caminha”. Caiu o Carmo e a Trindade, pois ninguém parece ter-lhe perdoado o facto de ter sido O PRIMEIRO lançador do peso português da história a conseguir estar presente nuns Jogos Olímpicos. Já que lá foi, logo lhe exigiram uma medalha, está-se mesmo a ver…
2º Telma Monteiro não conseguiu a medalha que todos esperavam no Judo e, entre outras coisas, queixou-se de ter sido prejudicada pela arbitragem. Não percebo nada de Judo, por isso não sei se ela tem razão. Quantas pessoas em Portugal, daquelas que andam agora a dar opiniões e a criticar os atletas, conhecem as regras do Judo e sabem dizer, de facto, se a atleta que tantos títulos tem dado ao país foi ou não prejudicada?
3º Ouvi na TV, um atleta (sinceramente já nem sem quem foi) a dizer, no final de uma prova, que sofreu muito para estar em Pequim. E disse uma coisa extraordinária, que foi mais ou menos isto: “tive muito azar, tirei um mês de férias do trabalho para treinar para os Jogos Olímpicos e lesionei-me, por isso quase não treinei”! Ou seja, este atleta conseguiu ir a Pequim num intervalo do trabalho… Será que Michael Phelps, nas mesmas condições, conseguiria alguma das oito medalhas que conquistou?
4º Já ouvi críticas a Marco Vasconcelos, um dos atletas da equipa portuguesa de badminton (badminton em Portugal!!!???). Mas, confesso que não li nem ouvi o que ele terá dito. De qualquer forma, fico surpreendido por saber que em Portugal há quem pratique badminton, a ponto de conseguir o apuramento para os Jogos Olímpicos. Já agora, onde é que eu posso ir experimentar uma partidinha de badminton?… Alguém faz ideia onde isto se pratica?
Tudo isto apenas para dizer o seguinte: o problema dos resultados portugueses em Pequim (e em todos os outros Jogos Olímpicos) não é a menor aplicação ou espírito competitivo dos atletas. É, essencialmente, uma consequência da cultura desportiva de um país pequeno e atrasado, onde durante os próximos quatro anos apenas se vai ouvir falar de futebol e, vá lá, de uns sucessos episódicos noutras modalidades…
Em Portugal não há cultura desportiva. Não existe desporto universitário, não é fomentada a prática da maioria das modalidades olímpicas. A quase totalidade do investimento no Desporto é canalizada para o futebol.
Em Portugal investiram-se milhões de euros em estádios que servem exclusivamente o futebol. Sem pistas de atletismo, sem ginásios, sem pavilhões. Em Portugal temos estádios de futebol, onde não há ninguém para jogar nem ver futebol (casos de Faro, Aveiro, Bessa e Leiria).
Ou seja, os resultados dos Jogos Olímpicos de Pequim não podiam ser outros. E apenas o excepcional carácter de uns quantos atletas, que insistem em lutar contra o atraso desportivo do país, nos faz sonhar com medalhas.
Por mim, não me importo de continuar a contribuir, através dos meus impostos, para a preparação dos atletas olímpicos portugueses. E mesmo gostando muito de futebol, cada vez estou mais farto de ver o dinheiro que se gasta com meia dúzia de prima-donas do chuto na bola e que vai, muitas vezes, parar também aos bolsos de terceiros…